terça-feira, 4 de março de 2014

Uma fonte de trabalho escravo logo ali

Sebastião Oliveira, Laerson Vidal Matias
e Fernando Mendonça
Heck

Logo ali o cotidiano nas indústrias parece mais lembrar a escravidão. Jornadas de 18 horas sem intervalo; assédio; ataques ao direito de greve; milhares de trabalhadores encostados em virtude das lesões por esforço repetitivo e por distúrbios relacionados ao trabalho e estresse; e, pasmem, incentivos à imigração para contratar em regime ainda mais precário.


Um sujeito qualquer, atrasado para a abertura do debate sobre a degradação do trabalho, poderia imaginar que denúncia era contra o país vizinho --sempre acusado de ser uma terra sem lei, que atualmente vive a febre das famigeradas maquiladoras. De quem mais poderia tratar a conversa realizada no Centro de Direitos Humanos e Memória Popular, fincado na fronteira do Brasil e Paraguai?

Afinal, nós estamos aqui, em solo brasileiro, protegidos pelas leis trabalhistas. Tudo dentro dos conformes. Jornada de trabalho, intervalos, folgas, carteira assinada, férias, décimo terceiro e, sobretudo, respeito à saúde do trabalhador. Pois é, mas o cenário de tirar a pele dos trabalhadores existe no Oeste do Paraná, em especial nos frigoríficos e abatedouros das grandes cooperativas e multinacionais.

A denúncia foi feita em detalhes pelo presidente da APLER (Associação de Portadores de Lesões por Esforços Repetitivos), Laerson Vidal Matias; pelo doutorando em geografia do trabalho, Fernando Mendonça Heck; e pelo dirigente do SindsPrev (Sindicato dos Trabalhadores Federais da Saúde, Trabalho e Previdência), Sebastião Oliveira.


Gravidade – O presidente da APLER afirmou que a realidade em Toledo (Sadia), Marechal Cândido Rondon e Dois Vizinhos têm todas as características de escravidão. Para piorar, os sindicatos, que deveriam defender os trabalhadores, hoje seriam extensões dos departamentos de recursos humanos das empresas. “Tudo em conluio com sistema judiciário”, denunciou.

Segundo Laerson Vidal Matias, a vida útil dos trabalhadores está dizimada. São milhares de pessoas despejadas no sistema previdenciário. Somente a Sadia teria recolhido R$ 40 milhões à previdência social de 2003 a 2007, porém mandou milhares de trabalhadores para o escanteio, a um custo de R$ 140 milhões aos cofres públicos.

A falta de respeito é tão grande que as empresas incentivam a vinda de trabalhadores de Bangladesh e da Índia, ajudando-os, inclusive, a montar moradias na região. Outra crítica atinge os sindicalistas pelegos, que apoiam banco de horas ou prêmios por assiduidade, incentivando homens e mulheres irem ao trabalho mesmo doentes.

Caminhos - O sindicalista Sebastião Oliveira alertou que um levantamento feito pelo próprio Ministério da Saúde revelou que 33 mil trabalhadores de março de 2012 a julho de 2012 se afastaram por problemas de saúde. “A todos, indico o filme ‘Carne e Osso’. O longa mostra a decadência do trabalho no Brasil. Vale a pena assistir”, resumiu.

Já o doutorando em geografia do trabalho Fernando Mendonça Heck afirmou que o debate em torno do trabalho também precisa avançar para uma perspectiva anticapital. “A que custo estamos aumentando a produtividade e produzindo a riqueza nacional?”, indagou o pesquisador. Na opinião dele, o problema é estrutural, de exploração do trabalho humano.

Saldo – Participaram do evento no CDHMP trabalhadores e sindicalistas de diferentes ramos da economia, além de estudantes. Como saldo, os participantes indicaram a organização da luta em torno da saúde do trabalhador de forma regular, num calendário mínimo de atividades ao longo do ano. Também foi ressaltada a importância em participar da CIST (Comissão Intersetorial da Saúde do Trabalhador) do COMUS (Conselho Municipal de Saúde).

DADOS GRITANTES

Segurança e Saúde no Trabalho
2,02 milhões de pessoas morrem a cada ano devido a enfermidades relacionadas com o trabalho.

321.000 pessoas morrem a cada ano como consequência de acidentes no trabalho.

160 milhões de pessoas sofrem de doenças não letais relacionadas com o trabalho.

317 milhões de acidentes laborais não mortais ocorrem a cada ano.

Isto significa que:
A cada 15 segundos, um trabalhador morre de acidente ou doença relacionadas com o trabalho.

A cada 15 segundos, 115 trabalhadores sofrem um acidente laboral.

Os países em desenvolvimento pagam um preço especialmente alto em mortes e lesões, pois um grande número de pessoas está empregada em atividades perigosas como a agricultura, a construção civil, a pesca e a mineração.

Fonte:
Relatório OIT (Organização Internacional do Trabalho) – 2013

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09/09/2013 - Quando o limite é atingido
Reportagem publicada no jornal Brasil de Fato

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